“E assim, para me impedir de ser indevidamente exaltado pela magnificência de tais revelações, eu recebi uma forte dor física (ou “uma ferida dolorosa no meu ego,” literalmente “um espinho para minha carne,”) que veio como mensageiro de satanás (ou adversário) para me machucar; isso foi para me salvar de ser exaltado indevidamente.” (2 Cor.12:7, The New English Bible, Cambridge University Press, 1971).

As melhores traduções da Bíblia dizem que as visões e revelações do Apóstolo vieram do Senhor, e que foi lhe dado um espinho que veio como mensageiro de satanás. Não dizem que o espinho era um mensageiro, dizem que veio como um mensageiro – uma comparação do problema ou pessoa com espinho e de mensageiro com satanás ou adversário. A versão João Ferreira de Almeida na Linguagem de Hoje também concorda com as traduções mais fiéis em relação ao espinho de Paulo.

 Por outro lado, todo estudioso do texto Bíblico deve concordar que existem muitas teorias sobre o que exatamente era esse espinho. Na realidade são tantas teorias que é quase impossível diagnosticar precisamente a situação de Paulo com absoluta segurança. Alguns sugerem que seu espinho seria plausivelmente falsos irmãos constantemente perseguindo-o e causando danos nas igrejas que ele plantou. (2 Coríntios 11: 24 – 26). Dado o contexto de 2 Coríntios capítulos 11 e 12, sem dúvida, espinho seria usado aqui como metáfora para os inimigos do Apóstolo, como nas referências abaixo o foi para os inimigos dos israelitas.

Segundo F. F. Bosworth, em seu livro “Christ the Healer,” Paulo apropria-se da mesma expressão usada por Moisés, Josué, Davi e Ezequiel como uma figura para ilustrar a intensidade com que os inimigos de Israel o afligiam. O espinho dos israelitas era portanto personalidades, segundo as referências abaixo:

  1. Números 33:50-55: “E falou o Senhor a Moisés… mas se não lançardes os moradores da terra (de Canaã) de diante de vós, então os que deixardes ficar deles vos serão por espinhos nos olhos, e por aguilhões no vosso ventre e vos pertubarão na terra em que habitardes” (vv 1 e 55)
  1. Josué 23:13. Anos mais tarde, Josué repete a mesma expressão usada por Moisés.
  1. II Samuel 23: 6. Em suas últimas palavras, Davi compara os filhos de

    Belial com espinhos. (Versões Bíblicas diferem na composição do versículo.)

  1. Ezequiel 2: 6. Na visão do capítulo dois, Deus lhe diz: “E tu, filho do homem, não temas as suas palavras; ainda que sejam sarça e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões, nãos temas as suas palavras, nem te assustes com os seus rostos, porque são casa rebelde.”
  1. E Ezequiel 28:24, profetizando contra Sidom: “E a casa de Israel nunca mais terá espinho que a pique, nem espinho que (lhe) cause dor entre todos os vizinhos que a tratam com desprezo…”

Como em 2 Coríntios 12:7, a palavra “satanás” era originalmente “adversário”, e só foi transliterada como está no cânon Bíblico no fim da Idade Média (Metzger and Coogan, pp 678–79). E Segundo McKenzie, S. L., a palavra sempre aparecia com um artigo no Antigo Testamento – “um satã”, “um adversário” –  (p 774, 1965). (Este assunto é intenso, estará disponível em outro estudo)

O verbo esbofetear no inglês to buffet me é traduzido na versão de Rotherham that he might be buffeting, originalmente significa blow after blow, como as ondas que continuamente golpeiam o barco. É interessante observar que espinho, Grego skolops, originalmente denotava algo doloroso, humilhante, algo que atormentava (Vine’s expositary dictionary of the NT words, p. 1153), como a palavra esbofetear também é traduzida atormentar na Bíblia Nova Versão Internacional.

Segundo o texto, as visões e revelações do Apóstolo foram realmente gloriosas! Não sabiam os Judeus de tais eventos na vida de Paulo? Por causa de inveja, os apóstolos eram obrigados a fugir para não serem presos e até mortos (comp. Atos 5:17-18). Como em Damasco, Paulo quase foi preso quando anunciava que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Numa certa noite, seus discípulos o fizera descer por uma janela, oculto num cesto, a fim de livrá-lo também da prisão (comp. Atos 9:20-25; II Cor. 11:32-33).

Em II Timóteo (4:14), Paulo faz referência a Alexandre, uma pessoa que lhe causou muitos males. Ele adverte ao companheiro de ministério, para se guardar também desse inimigo (v.15). Em I Timóteo 1:19-20, Paulo fala outra vez de Alexandre, e de um certo Himeneu os quais ele “entregou a satanás”. Himeneu e Alexandre eram falsos doutores, blasfemadores, cujos ensinamentos se opunham à doutrina de Cristo e dos apóstolos (veja Atos 19: 33; cf. 13:43).

A expressão “entregue a satanás”, originalmente “adversário”, era usada pelos Essênios de Qumran, para “fixar” uma “pena de exclusão”, que deveria permitir ao culpado consertar-se, arrepender-se e conceder-lhe uma oportunidade de reforma (cf. I Cor. 5:1-5). Caso a pessoa não se arrependesse era excluída da Comunidade e estaria sujeita à punições. Daí, a expressão entregue ao adversário. Da mesma maneira, quando descobriam que os apóstolos e demais Judeus Cristãos serviam a um tal Jesus Cristo, e não somente a Yahweh, também os excomungavam da Comunidade Judaica e passavam a persegui-los com ódio mortal. 

O Novo Testamento apresenta vários casos de pena, cujos motivos e cuja exclusão diferem entre si. Às vezes, o culpado era deixado por certo tempo separado da comunidade Cristã (I Cor. 5:2, 9-13; II Tes. 3: 6-14; Tito 3:10; cf. I João 5:5,16,17; II João 10). Paulo usou a expressão “entregue a satanás” (ao adversário) para dizer que a pessoa estava ‘privada do apoio da Igreja e dos santos e, consequentemente, exposto ao poder dos adversários’. Tal disciplina supõe certo poder da comunidade sobre seus membros (veja Mt. 18:15-18; 5: 21-26). O Evangelista Mateus (5: 21-26) faz referência a uma pena rigorosa, organizada pelos oficiais do Conselho Judaico, do Sinédrio – a  suprema corte dos Judeus.

No período do Novo Testamento, ‘o Sinédrio era formado por três tipos de membros: o principal dos sacerdotes, os anciãos e os doutores da lei. O total era de 71 membros, incluindo o supremo sacerdote, o qual presidia a sessão’ (NIV). Quando a pena era capital, o culpado era queimado no Vale de Hinnon (Hebraico Gé-hinnõm), de onde originou a palavra Grega geenna (inferno – v.22). Este era o artigo mais severo da lei de  Talião, encontrada também na lei mosaica. Lei que antes Saulo de Tarso defendia com ‘unhas e dentes.’

Por isso, na conversão do apóstolo, Deus disse a Ananias, “eu o mostrarei quão grandes coisas sofrerá pelo meu nome”. Todavia, no auge do sofrimento, das perseguições e necessidades, Paulo teve uma experiência gloriosa com Deus (descrita em II Coríntios 12:1-10.) Tal experiência o conferiu poder e autoridade, sobretudo, para suportar perseguições, e proclamar o evangelho com ousadia. Quando Paulo diz que anunciava o evangelho estando em fraqueza (cf. Gal. 4:13), refere-se às consequências do sofrimento que experimentava em sua própria pele. Ao orar para que o “espinho” afastasse dele, e seus sofrimentos fossem aliviados, Deus disse: “Paulo, a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Ele então exultou com a resposta de Deus e depois disse, “de boa vontade me regozijarei no sofrimento para que em mim habite mais e mais o poder de Cristo” (v.9). No verso 10, ele enumerou mais uma vez as provações que tentavam afligir seu homem exterior: Fraqueza (por causa dos sofrimentos), Injúrias (dos Judeus), necessidades (por causa das fugas), perseguições (dos inimigos), angústias (por causa da resistência dos Israelitas ao evangelho da graça). 

Quando o Senhor disse “a minha graça te basta,” não estava negando ajudar a Paulo em suas provações, o Senhor estava conferindo a Paulo tudo que ele precisava para vencer provações. A palavra graça significa em vários dicionários: “mercê, favor, proteção, benefício, ato de clemência (em favor do condenado), recompensa, remuneração (por trabalho), ajuda divina”. Aqui, o Senhor estava lhe dando uma resposta mais excelente, uma melhor solução do que remover o “espinho.”

Alguém disse que Deus não nos envia provações, mas as provações nos enviam a Deus. O próprio Paulo diz, “quando estou fraco é que me sinto forte”. A fraqueza humana proporciona a oportunidade ideal para Deus mostrar seu poder em nossas vidas, como também moldar o nosso caráter cristão, e nos levar à imolação de nós próprios, do ego humano, a fim de despertar-nos diariamente à Sua imagem e semelhança.

Não somente Paulo, a maioria de nós tem dificuldade de aproveitar as provações, fraquezas, necessidades e perseguições, como oportunidades divinas para fortalecer a nossa fé e moldar o nosso caráter cristão. Sempre oramos angustiados, em vez de regozijarmos em Deus e esperarmos n’Ele, confiantes, sem antecipação, ansiedade, pre-ocupação, aproveitando as provações – aquelas que nos levam ao pleno conhecimento de Deus e aperfeiçoam em nós a excelência do amor de Cristo!

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By Elza A. Gobira Keplinger

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