Segundo Philo Judeaus, Judeu Alexandrino, teólogo e filósofo (20 a.C – 50 d.C.),  Gaiu Plinius, romano, naturalista, enciclopedista e escritor (23-79 A.D.), e ainda Claudio Galenus, médico e escritor grego (130-200 d.C.), o óleo de oliva é um dos remédios mais antigos e mais conhecidos, usado pelos povos da antigüidade.

O óleo de oliva (do hebraico shemen e do grego elaion) é extraído das oliveiras. Sua grande variedade de utilidades fez do óleo de oliva um valoroso produto comercial nos tempos antigos (ver Ezek 27:17; Luc. 16:5e 6; Apoc. 6:6; 18:13). Shemen e elaion são termos generalizados para “óleo de oliva,” independentemente do uso, por exemplo, para preservar escudos de couro de reis e de outras pessoas em atividades bélicas (ver II Sam. 1: 21; Isaías 21:5).

Ungir, Ugido, Unção

A. Campelo afirma que “em grego os dois primeiros sentidos apresentados da palavra ungir são entendidos da palavra aleifw (aleipho). Já o terceiro sentido, é entendido pela palavra xriw (chrio) da qual se deriva a palavra xristov (christos), de onde temos a designação de Cristo Jesus como O Ungido de Deus. Neste sentido, a primeira (aleipho) é uma palavra que denota uma ação corriqueira e desprovida de qualquer conotação religiosa ou espiritual. Enquanto a segunda (chrio) indica uma ação espiritual, uma consagração divina. Segundo Campelo, em Tiago 5:14, encontramos a palavra (aleipho) e não a palavra (chrio) (compare também Marcos 6:12 e 13). Sendo assim, certamente o ministério dos apóstolos e dos presbíteros incluía tanto a cura pela oração da fé, como pela unção (ou esfregaço) com óleo.

Aleipho é um termo geral usado para um ungido de qualquer espécie, mesmo para um esfregaço com óleo, unção em feridas, ou um refrescamento físico com cosmético depois de um banho ou limpeza. Chrio mais limitado em seu uso do que Aleipho, significa unção do Espírito, unção espiritual (comp. Isaías 10:27; 11:2; 42:1, 6-7; 61:1-3; Lucas 4:18-19; Atos 10:38; Heb. 1:9; II cor. 1:21-22).

No Antigo Testamento, o verbo mashach significa ungir, untar e consagrar. O termo é mais comumente usado para untar no sentido de santificar, separar, colocar algo à parte, ou alguém para uma posição, ofício ou função. Por exemplo, Elias foi ungido para ser profeta (ver I Reis 19:16). Mais especificamente, os reis eram ungidos para reinar sobre uma nação (I Sam. 16:12; 24:6; I Reis 1:39).  

Machach é também usado para Anointed One (O Ungido de Deus); uma palavra que é importante em toda a Bíblia Sagrada, a qual deu origem ao termo Mashiach que significa Messias. Os Salmos geralmente expressam a idéia em conexão com a linhagem Davídica, usando a frase o ungido do Senhor (comp. Salmos 2:2; 18:50;  89:38,51).

Unção vem do substantivo grego, chrisma, do verbo chrío, ungir; e o adjetivo christós, que significa ungido. Chrisma é o nome correspondente a Chrio. Significa também um ungüento ou um ungido. No Novo Testamento era usado somente metaforicamente, e por metonímia do Espírito Santo, duas vezes em I João 2:20 e 2:27. 

Tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o óleo de oliva era comumente usado em grande variedade de cerimônias e para vários propósitos, em algumas passagens, associado com vinho e o vinho com mirra, e com outras especiarias. Confere os exemplos a seguir:

  1. Para Tratar Feridas

(Compare Isaías 1:5-6; Ezequiel 16:9; Lucas 10:33-34).

Está claro nas passagens supracitadas que todos os povos antigos certamente conheciam os efeitos curativos do óleo e do vinho. Os soldados que feriram Jesus na cabeça (Marcos 15:19), apesar da zombaria, também conheciam os efeitos curativos do vinho e da mirra (15:22-23).

Segundo expositores da NIV (New International Version – study Bible), o Talmude dá evidência de que mirra misturada com vinho servia para anestesiar e aliviar dores agudas. Pesquisadores afirmam que a resina que se obtém dos caules da mirra é usada na preparação de medicamentos, devido a suas propriedades antisépticas.

Outras passagens do Antigo Testamento também afirmam que os povos da antigüidade eram peritos na arte de curar (ver Jer. 46:11; 51:8; cf. Jer. 8:21-22; Gen. 37:25). “Os egípcios, por exemplo, empregavam a mirra no culto ao deus Sol (origem do nome Faraó) e como ingrediente na mumificação, uma vez que suas qualidades embalsamadoras já eram conhecidas. Até o século XV, era usada como incenso em funerais e cremações… A sua fragrância também era utilizada em incensos para dar um leve aroma de terra ou como aditivo para o vinho, uma prática descrita por Fabius Dorsennus, uma autoridade no assunto durante a antigüidade” (www.Wikipédia.org).

O livro de Levítico (capítulos 13 e 14) testifica que os sacerdotes eram especialistas na cura das doenças da pele. As funções dos sacerdotes judeus eram claramente definidas pela lei mosaica, e uma delas era diagnosticar se a doença era ou não contagiosa e encontrar a cura para a mesma. Segundo o relato, a pessoa era examinada pelos sacerdotes, e encerrada numa câmara por sete dias, ou o tempo necessário para a certificação da cura, que era realizada certamente com os mesmos medicamentos naturais disponíveis. O capítulo 14 (ver versos 15-18) relata o ritual realizado com óleo de oliva depois que as doenças eram curadas. O rito incluía três partes: (1) ritual para a primeira semana (fora da cidade, vv 1-7), (2) ritual para a segunda semana (dentro da cidade, vv 8-20) e (3) permissão especial para os pobres (vv 21-32). Nos sistemas antigos, doenças e distúrbios geralmente implicavam pecado, e atribuíam à pessoa ou ao objeto imundícia.  A limpeza exigida incluía sacrifício como também purificação com óleo (comp. capítulo13).         

Em Lucas 5:12-14, Jesus ordenou ao leproso curado a ir ao sacerdote submeter-se aos rituais citados,  (1) a fim de que a cura fosse comprovada,  (2) para testificar de seu respeito às leis, (3) testemunhar da autoridade do Seu ministério, e (4) para que o homem que recebesse o certificado de sanidade do corpo e purificação da alma pudesse reintegrar-se à sociedade.

Segundo Campelo, “Origenes (c210 d.C.) ao tratar da questão da unção com óleo, afirma, corretamente, que alguns Cristãos (neste caso Celso) teriam querido curar suas feridas através da ação divina, mas manter sua alma inflamada em seus vícios e pecados, rejeitando os remédios espirituais dessa mesma palavra, a confissão de pecados e o perdão. Querendo usar o azeite, o vinho e outros emolientes, e demais ajudas médicas que aliviam a enfermidade, como alívio para sua alma corrompida, ou ainda usar de supostos poderes mágico-espirituais conferidos aos medicamentos na cura das feridas, sem se apresentarem diante de Deus, para a cura da alma.” Ainda hoje não é diferente!

  1. Nas Ocasiões Festivas

O óleo de oliva perfumado era usado nas ocasiões festivas por alguns motivos, e um deles era para fazer o rosto brilhar (ver Salmos 45:6-9 [Heb 1:8-9]; Sal. 104:15; [cf. 2 Sam. 12:20; Dan. 10:3]). O Salmo 45 é uma canção profética de adoração de um rei no dia do seu casamento. Certamente pertenceu à dinastia Davidica, e provavelmente tenha sido usada em outras cerimônias de casamento real. Devidamente o mesmo foi dirigido a um rei cujo reinado está caracterizado por vitórias sobre nações inimigas (cf. Salmos 92:10 e 23:5).  O autor da epístola aos Hebreus seleciona os três versos do Salmo 45 que expressam a deidade do Rei Jesus Cristo, o Messias prometido, da descendência de Davi. O Salmo 104 é um hino ao Criador do universo, cuja glória é manifestada na criação. O verso 15 destaca o valor nutritivo-sanador do vinho, do óleo de oliva e do trigo. 

  1. Para Ungir a Cabeça de Visitantes Ilustres

Costumeiramente os antigos, de igual modo, usavam óleo de oliva perfumado para ungir a cabeça e os pés de visitantes importantes, numa atitude de honra e boas-vindas. A ação da mulher pecadora expressa sua devoção, reverência, e profundo amor por Jesus, o Cristo de Deus. Certamente deve ter ouvido as pregações do Mestre, e arrependida, determinou mudar sua vida, e seguir os passos do Salvador amado. Ela veio cheia de amor e gratidão, entendendo que Jesus era o Messias prometido, o qual havia de dar sua vida em prol da redenção de Israel (Comp. Mat. 26:6-7; João 12:-1-3; 11:2; Lucas 7:36-50;  Salmos 23:5-6; 16:5; 133).

O vaso de alabastro usado na unção de Jesus em Betânia possuía o formato de uma jarra de longo pescoço globular, e continha um ungüento perfumado de grande valor. Como revela o próprio texto, esta passagem está contida nos contextos, cultural e profético (comp. Mat. 26:12 – A Bíblia Nova Versão Internacionl). 

No Salmo 16:5, cálice é uma metáfora, e significa o vinho que o anfitrião oferece aos convidados para beberem. Para os fiéis, o Senhor oferece cálices transbordantes de bênçãos e vitórias. Da mesma maneira, em Eclesiastes 9:7-8, vestes brancas e unção com óleo expressam santidade, salvação e grande regozijo.

O Salmo 133 é uma canção de louvor em gratidão pela unidade espiritual entre o povo de Deus. Davi ressalta no Salmo, a importância, grandeza e excelência do amor fraternal. O óleo que o sumo-sacerdote usava para ungir o sacerdote era, finíssimo, especial, de excelente qualidade. Deveria ser suficiente para saturar a cabeça do sacerdote, descer sobre sua barba, e rolar sobre suas vestes sacerdotais, significando total consagração ao santo serviço do santuário; semelhantemente, harmoniosa comunhão e sacrifício do povo de Deus (NIV).

  1. Para Alimento

(Ver  Êxodo 29:2; I Reis 17:12; 2 Reis 4:1-7)

Nos tempos bíblicos, o óleo de oliva era usado em grande escala. Como vimos antes, sua grande variedade de utilidades fez do óleo de oliva um valoroso produto comercial, especialmente de alimento. São inúmeras as passagens que relatam este fato (comp. Job 29:6; prov. 21:20; Isaías 25:6; Miq. 6:7; Apoc. 6:6).

  1. Para Cosméticos, Perfumes e Para Luz

(Comp. Êx. 25:6; Mat. 25:3-4,8; Cant. 1:3; Rute 3:3 (cf. 2 Sam 14:2); Ester 2:12).

Todo leitor assíduo da Bíblia conhece a parábola das Dez Virgens, a qual dispensa comentário; a história da virtuosa moabita Rute e da brava rainha Ester (nome persa da deusa Ishtar). São relatos extraordinários, cheios de ricas lições para nós hoje. Certamente estas mulheres conheciam o significado espiritual, a importância do óleo, dos cosméticos, do preparo, da unção, a fim de irem ao encontro do noivo amado. Os eventos no livro de Rute aconteceram séculos antes de Ester, talvez cerca de 1380 a 1050 a.C., (?) período em que os Juízes governavam a Terra Prometida. A história começou com Elimeleque, esposo de Noemi, e seus dois filhos, efrateus de Belém de Judá, os quais foram peregrinar nos campos de Moabe. Depois de falecidos, Noemi e Rute voltam à terra de Judá, onde Rute conhece e se casa com Boaz, homem de Belém, dono de muitos campos, valente e poderoso, da geração de Elimeleque.

Segundo historiadores bíblicos, a colheita de grãos, nos campos de Canaan, acontecia em Abril e Maio de cada ano, e a de trigo e cevada algumas semanas depois. Noemi foi o instrumento nas mãos de Deus para ungir a valorosa Rute – bisavó da contínua linhagem messiânica (ver 4:13-22). No capítulo 3:3, Rute é instruída pela sogra, a preparar-se como uma noiva, segundo o costume daqueles dias: “E disse-lhe Noemi…vai, toma banho, unge-te, e veste tuas melhores vestes, e desce à eira…”

Intérpretes do texto bíblico afirmam que Adassa (nome hebraico da rainha) foi levada à presença do Rei (persa) Xerxes ou Assuero no ano sétimo do seu reinado, isto é, Dezembro de 487 ou Janeiro de 479 a.C. Esta foi uma data marcante tanto na vida de Adassa, como da nação de Israel. O verso 12 diz que, “Antes de cada moça escolhida ser levada à presença do Rei, ela completou doze meses de tratamentos com produtos de beleza prescritos para mulheres, e seis meses com óleo de mirra e seis com perfumes e outros cosméticos” (NIV). Foi assim que Adassa foi levada à presença do Rei, posteriormente, a Rainha Ester do livro que leva seu próprio nome (escrito c460 a.C). Enquanto os especialistas preparavam seu corpo com cosméticos, Deus ungia seu coração com a unção do alto. A vitória de Adassa foi a vitória do povo Judeu no final do exílio babilônico, e conseqüentemente a nossa.

  1. Para Consagração de Alguém ou de um Objeto

(Comp. Gen. 28:18; 31:13; Êxodo 30:22-33; 29:2 e 7; 40:9-16).

O azeite da santa unção era composto de mirra, canela aromática, cálamo aromático, cássia e azeite de oliveiras (ver Ex. 30.22-25). Como vemos em diversas passagens da Bíblia, unção de pessoas, de objetos de memorial de adoração e de comunhão, era entre o povo de Deus uma prática comum nos tempos antigos. Jacob ergueu um memorial em nome do Deus verdadeiro e o consagrou com óleo. Através da Bíblia, a unção com óleo (chrio) simbolizava santidade, separação, concerto, possessão, herança spiritual, poder, virtude e autoridade do Espírito (ver Isa 61:1-3; Atos 4:26; Dan 9:24-26); significava que o objeto ou a pessoa foi santificado(a) e separado(a) para uso exclusivo dentro do reino de Deus.

Unção de pessoas era feita com propósitos espirituais com o objetivo de separar essa pessoa para uma tarefa específica, seja enquanto rei, sacerdote ou profeta. É importante também notar que todas estas tarefas eram realizadas em conjunto com o objetivo de guiar o povo de Deus tanto espiritualmente quanto secularmente (Comp. Lev. 8:10-12; I Sam 10:1; II Reis 9:6; Isa 45:1). Porém, como comenta Campelo, também é importante ver que essas tarefas foram assumidas por Jesus Cristo, o ungido de Deus. Assim, Cristo é, na Nova Aliança, o Supremo Sacerdote, o Profeta e o Rei.

Ele defende que “no Novo Testamento a unção de pessoas foi substituída pela imposição de mãos, a qual outorga autoridade para ministrar, educar e servir, como até hoje é feito na ordenação de pastores e diáconos; que esse processo não tem exatamente a mesma significação da unção com óleo de outrora, não há qualquer santificação sendo conferida através desse ato, nem há também qualquer transferência de poder, pois, todo o poder está em Cristo” (Mateus 28:18).

Em sua exposição de Tiago 5:14, o escritor defende que o óleo não tem em si nenhum poder curativo sobrenatural, além de seu próprio poder como medicamento. O verdadeiro poder está na fé do Senhor Jesus, e pode vir a ser derramado sobre o enfermo, em atendimento às orações dos santos em Cristo Jesus (comp. Heb. 10:19-23).  

 

Referências

Bíblia Sagrada, A Versão Revista e Corrigida Fiel ao Texto Original, Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, São Paulo, 1995.

Campelo, Walter Andrade: Site Luz para o Caminho (www.luz.eti.br/)

Gobira, Elza de Assis, Covenantal Legacy: Old Principle on New Basis, iUniverse, INC. New York, Lincoln, Changhai, 2006.

New International Version Study Bible, Zondervan 2002.

W.E.Vine, Concise Dictionary of the Bible, Thomas Nelson Inic. 1980  

By Elza A. Gobira Keplinger

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